Encontre
  • MÚSICA INDEPENDENTE: DESAFIOS PARA 2018
  • 0131
MÚSICA INDEPENDENTE: DESAFIOS PARA 2018
in Artigos, Crônicas this entry has Nenhum comentário by ZeroNada

Inspire! Acredite ou não, caro leitor, lá se foi o primeiro de uma dúzia de meses de mais um ano. 2018 começou a acabar. Agora você já pode soltar o ar.

Os desafios que este ano reserva para cada um de nós é mais uma etapa num longo caminho que não nos compete sequer medir ao certo. E a vida, como nos ensina a Filósofa e Poeta Brasiliense Lúcia Helena Galvão, pode ser comparada a um automóvel onde ocupamos o nosso lugar. Podemos nos sentar a frente, na poltrona do motorista definindo a direção e desviando dos obstáculos; ou, de outro modo, nos sentar no banco de trás, encolhidos e com uma venda nos olhos. De ambos os modos, acredite, o carro seguirá o seu caminho. Que pode ser determinado por nós mesmos ou guiado por um outro que nos levará sabe-se lá para onde.

É certo que a vida simplesmente segue e os desafios para quem queira se meter a criar ou se envolver com arte serão muitos neste ano que se inicia. Na verdade, veremos uma repetição de dificuldades que já se apresentam há alguns anos.

Nossa sociedade moderna vem encaixotando e dando rótulo a tudo quanto é expressão artística e humana, parece cada vez mais difícil vencer este paradigma. Repare, a situação que se apresenta é exatamente oposta ao que foi outrora, a quarenta ou cinquenta anos atrás, época em que os compositores e artistas desbravaram caminhos nunca antes trilhados, se preocupando muito pouco em qual prateleira os vendedores de discos iriam colocar as suas obras ou se essas alcançariam ou não as “paradas de sucesso”; voltando mais longe ainda, séculos atrás, compositores clássicos imortalizavam suas ideias e talhavam na história da humanidade os seus nomes, a estética e beleza de suas composições era o que mais importava, não existia naquele momento um mercado sedento por novidades semanais. Existia uma diferença interessante no motivo pelo qual um artista se metia a fazer música, o propósito era outro. Isso tudo, sem ainda ter mencionado a grande diferença que quero destacar aqui: a falta do aparato tecnológico que temos hoje.

Vejam Bach, por exemplo, tinha um time de “copistas” que literalmente copiavam as suas partituras de música sacra para que estas fossem distribuídas a tempo para os sermões de domingo das capelas vizinhas, sim, pasmem, no século XVI não tinham e-mail, tão pouco o tão familiar CTRL+C, CTRL+V. Mais recentemente, os adolescentes americanos não tinham acesso a todo material pedagógico musical que se tem hoje em vídeos no YouTube e até mesmo softwares de teoria musical, eles literalmente atravessavam a cidade para conhecer o “primo do amigo de um amigo” que sabia fazer o “acorde do diabo”, aquele trítono musical que causa toda uma tensão aos ouvidos, pedindo uma resolução harmoniosa e que foi muito incorporado no Heavy Metal, por exemplo. Em solo Tupiniquim, o samba despontava nos morros cariocas, muitas vezes em gravações de qualidade duvidosa e com elevado custo financeiro, não se tinha na época fácil acesso a bons estúdios, tampouco se pensava que seria possível em algum momento ter um estúdio em casa.

Lhes faltavam muita coisa e, no entanto, tinham de sobra algo muito especial: imaginação. Sim, em todos esses exemplos, os músicos e compositores davam asas ao impossível, permitiam que as ideias fluíssem sem dar bola para as limitações; limitações essas que não eram apenas de equipamentos ou ferramentas adequadas, algumas vezes era de domínio ou habilidade técnica, falta de conhecimento teórico mesmo.

Voltando aos tempos atuais, e é aqui que também devemos atentar para algo importante, temos a nossa disposição inúmeras ferramentas que corrigem a voz, ajustando a afinação de um cantor, softwares que nos trazem todo campo harmônico de uma determinada escala, teclados eletrônicos que “simulam” uma banda completa e tantos outros aparatos tecnológicos acessíveis com um clique. E, no entanto, falta aos músicos e artistas imaginação. Falta dar asas ao pensamento para que ele simplesmente sobrevoe o todo e, uma vez lá no alto, vislumbrando o que a nossa consciência limitada e racional não pode ver, desça em um razante com as boas novas para que nossa mente capte o que for possível e traduza em uma obra musical, pintura ou dança tudo aquilo que viu.

Em centenas de outros artigos espalhados por este vasto mundo digital, você encontrará os conselhos para fazer o seu som “soar” como se deve, dicas para alcançar o público certo, tutoriais de como difundir a sua música, deixar a sua marca. O que você não vai encontrar facilmente, certamente porque pouquíssimos podem dizer algo a respeito, é como ter imaginação? Como desenvolver a inspiração? Como trazer para o mundo das ideias o que a seu pensamento viu nos planos superiores? Não é à toa que grandes canções do final do século passado nasceram de sonhos ou momentos de pura descontração, este é um modo natural para este tipo de concepção. Para citar apenas duas: “Let it Be”, concebida logo após Paul McCartney sonhar com sua falecida mãe e “Tocando em Frente”, composta e arranjada em um jantar familiar entre as famílias de dois grandes compadres, Renato Teixeira e Almir Sater.

Sinceramente, penso que aqui é que mora o grande desafio não só para este ano, mas para toda uma era de obscurantismo que estamos mergulhados. O saudoso Artur da Távola, apresentador e radialista, nos dizia: “Música é vida interior! E quem tem vida interior, jamais padecerá de solidão”. Há que dar ouvidos a este seu passageiro no banco traseiro, tirar-lhe a venda e colocá-lo para guiar. Os músicos e artistas precisam promover este reencontro consigo mesmos, buscando inspiração, se permitindo imaginar, sem preocupações técnicas na hora errada. Este não é só um desafio para uma vida inteira, mas sim o ponto crucial para qualquer ser humano que queira se tornar melhor e mais útil ao seu propósito.

Loading images...